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terça-feira, 28 de março de 2017

CIDADE DO ROMBO - Quando no país da carne fraca a cultura e o esporte são cutículas

Cláudio Messias*

Nos anos 1990 o município de Paraguaçu Paulista deu algumas lições, políticas, sobre como fazer a gestão pública que contemple as necessidades básicas da população, previstas utopicamente na Constituição Federal e, concomitante, necessidades que a maioria absoluta dos prefeitos e vereadores concebe como não tão básicas assim. Não citarei nomes para não evidenciar que esses próximos parágrafos tenham qualquer encomenda partidária, como pré-definem, nas últimas semanas, cabeças porosas que a partir de 2017 assumiram o pseudo poder na Sucupira do Vale.

Mas o assunto inicial aqui é Paraguaçu Paulista, que apesar de figurativamente ser sobrenome de Odorico, serve apenas de parâmetro para o que o blogueiro quer expor em se tratando de conflito de interesses. Pois foi Paraguaçu, com pouco mais de 30 mil habitantes à época, que duas décadas atrás, apesar do perfil socioeconômico essencialmente agrícola e pecuário, protagonizou uma verdadeira revolução social entre os municípios vinculados ao então Cierga, hoje Civap (nomes diferentes para um consórcio que reúne prefeitos e vereadores do denominado Médio Vale do Paranapanema).

Fazendo um recorte histórico, temporal, temos nos anos 1990 um planeta que via-se ante ao fim da Guerra Fria, um Brasil com índices de inflação que faziam, em dinheiro de hoje, 1 real valer 10 centavos depois de trinta dias e um caos na educação que mostrava 3 a cada 10 brasileiros sem saber sequer assinar o próprio nome. No esporte, nosso único orgulho era um  personagem da elite, Ayrton Senna, que estourava motores, brigava literalmente no braço por seus objetivos e subia ao pódio da Fórmula 1 com certa regularidade.

Nesse cenário desfavorável Paraguaçu Paulista não aquietou-se. Fora da zona de conforto, estruturou a rede municipal de ensino, investiu pesado em cultura e criou condições público-privadas para que o estádio municipal Carlos Affini recebesse jogos profissionais no gramado, e público (pessoas) nas arquibancadas. A tríade educação-cultura-esporte funcionaria, pois, a pleno vapor.

Naqueles anos 1990 o blogueiro que cá escreve transitou, profissionalmente, do meio rádio para o meio impresso. E foram dez anos de uma rotina permanente deslocando-se de Assis a Paraguaçu Paulista. Por exemplo, em 1990, mesmo Assis dispondo do recém-reformado teatro municipal Padre Enzo Ticcinelli, era o teatro Lucila Nascimento, em Paraguaçu, que recebia os mais importantes espetáculos. E foi lá, no camarim daquele espaço, que o blogueiro entrevistou, por exemplo, Fernanda Montenegro, antes do monólogo 'Dona Doida". Diálogo, por sinal, inesquecível, por fatores já aqui expostos, nessas páginas do Blog.

Nos mesmos anos 1990 o Esporte Clube Paraguaçuense, o Azulão da Sorocabana, fez uma trajetória que na época era comum entre clubes como Novorizontino, São Caetano e Matonense. Saiu da Série B-2, em que estava o Vocem, e chegou à Série A-2, conquistando o acesso ano a ano, sucessivamente. O estádio Carlos Affini não tinha a capacidade do recém-inaugurado Tonicão de Assis, mas dispunha do básico, ou seja, setor de arquibancadas coberto, gramado excelente e sistema de iluminação para jogos noturnos.

Domingo de jogo no Carlos Affini tinha uma cena peculiar na rodovia Assis-Paraguaçu. Principalmente por volta das 17h30 (sim, os jogos naquela época começavam 15h30, quando não às 15h00), formavam-se filas de automóveis no sentido Assis. Assisenses que não tinham futebol profissional para ver na cidade se deslocavam para ver o Paraguaçuense na A-2. E eram jogos que valiam o esforço, considerando a rivalidade existente entre o Azulão e clubes como Noroeste, Francana e Sãocarlense.

Na educação, a estruturação do plano de carreiras dos professores municipais, anterior à desastrosa municipalização do ensino implantada na mesma década, fez movimento semelhante de migração. Se para assistir espetáculo teatral ou musical de qualidade e ver jogo de futebol da qualidade da Série A-2 o assisense ia a Paraguaçu, para trabalhar na educação o mesmo ocorria. E foram muitos os professores da educação básica que preteriram o Estado e preferiram o vínculo com a Prefeitura de Paraguaçu.

Nessas últimas duas décadas a população de Paraguaçu aumentou em torno de 50%. Parte das políticas de investimento em cultura, esporte e educação foi mantida, não necessariamente na proporção do que foi visto nos anos 1990. Hoje estância turística, a localidade é, indiscutivelmente, um referencial. Cidade simpática, limpa, com estrutura urbana elogiável, respeitando-se os limites de investimento público para uma localidade de pequeno porte. Sim, claro, problemas com violência urbana também atípicas para um município do porte prevalecem.

O circuito gastronômico de Paraguaçu coloca qualquer cidade de maior porte do Civap para trás. Logo, quem hoje investe e tem retorno em restaurantes e bares cujos preços, acima da média, são compatíveis à qualidade do cardápio, do menu, é sabedor que o público, ali, não é qualquer um. Seguindo o cerne do raciocínio aqui colocado nesse texto, o público adulto que justifica a manutenção de pizzarias, barzinhos, sorveterias e restaurantes era, em Paraguaçu, jovem, adolescente ou mesmo criança nos anos 1990. Acesso a educação, cultura e esporte de qualidade, pois, dá resultado a longo e médio prazos.

Ser gestor público, outrossim, não é olhar para o próprio umbigo, mensurando a pseudo popularidade que o cargo hipoteticamente representa. Alguns dos gestores que passaram pelo gabinete da Prefeitura de Paraguaçu Paulista não estão vivos, hoje, para ver esse igualmente hipotético exemplo que o blogueiro elenca. Aliás, a própria política pública de educação daquele município já não é mais a mesma, submetendo o professorado a uma vexamitosa desvalorização. Mas, os resultados são mensurados, sim, com elementos de vínculo entre a cultura do presente e os investimentos do passado.

Blogueiro assiste, à distância, o debate em torno da possível fusão entre a Autarquia Municipal de Esportes de Assis e a Fundação Assisense de Cultura. Duas autarquias cujos custos, pelo argumento de quem está na gestão do município, oneram os cofres públicos em meio a um momento em que há buraco para tudo na cidade: buraco aberto pela chuva na avenida Otto Ribeiro, buraco de 60 milhões nos cofres da Prefeitura, buraco por quase todas as ruas 'transitáveis' e buraco na base desse discurso todo.

Necessário voltar aos anos 1990 e recordar em que circunstâncias as duas autarquias foram criadas e, nessa linha do tempo, mensurar parte do que cada pasta trouxe de conquistas. Antes da Autarquia havia a Comissão Central de Esportes, à qual era vinculada a Liga Assisense de Esportes. A cidade tinha torneios que lotavam o Gema e, depois, o Jairão. A Copa Assis de Futsal parava a cidade em suas decisões. O Tonicão, eternamente inacabado, assim como o Marcelino de Souza, recebiam a Taça Prefeitura e o Torneio Ademir Marcelo. A lenda, à época, era que jogos do varzeano e do futebol amador levavam mais público do que o Vocem em sua fase de crise extrema.

Na cultura o antigo Cine Pedutti, que depois chamou-se Cine Regina, foi assumido pela FAC, que por sua vez representou, em sua criação, a junção de serviços de cultura popular como o Semear e o Semearte. Um espaço (o cinema) não muito aproveitado e que, não prioritário nos investimentos, sucateou-se. Igual destino o teatro Enzo Ticcinelli só não teve porque passou a ser a sede da própria FAC. Um espaço, contudo, mais ocioso do que aproveitado, considerando a baixa frequência com que espetáculos do circuito nacional passam por Assis. Teatro com a fama de uma das melhores acústicas do circuito teatral brasileiro, com gestão não tão compatível a essa condição.

Juntas, FAC e Autarquia de Esportes já proporcionaram, sim, emoções coletivas que ficam na memória da população hoje jovem ou adulta precoce. Jogos memoráveis do Conti Assis, no Jairão, como na final do Torneio Novo Milênio, e os festivais Cristal in Concert, no teatro. Dois exemplos muito significativos, pois o que mais deu certo, em sucesso de público, no esporte e na cultura de Assis nesses últimos 20 anos, advém de parceria com a iniciativa privada. Trata-se, nesse ínterim, da tal parceria público privada, a PPP, que muitos criticam ou criticaram no passado.

Desnecessário, mas necessário, referir ao incalculável número de pessoas formadas nas escolinhas mantidas pelas duas autarquias, quais sejam, AMEA e FAC. Muitos profissionais liberais hoje consagrados pela micro-economia do município aprenderam ou desenvolveram suas habilidades culinárias ou artesanais em cursos mantidos pela FAC, realidade igual à de inúmeros jovens e adultos que um dia ocuparam vagas nas escolinhas de esportes da AMEA.

Blogueiro confessa não saber, ao certo, o que há de ruim ou o que pode haver de bom na junção de FAC e Autarquia de Esportes em um departamento da Secretaria Municipal da Educação. Misturar verbas de educação e cultura não dá certo, todos sabemos. No orçamento, acaba sendo como o vale-alimentação que é pago em dinheiro no holerite: em questão de meses é incorporado na receita e, quando usado em despesa, desaparece. E comprovação pragmática disso foi o que obrigou Temer, o ilegítimo, a juntar e logo depois separar os ministérios da Cultura e da Educação, no ano passado.

Educação, esporte e cultura são tão básicos quanto necessários nas políticas públicas que contemplem acesso da população aos direitos que lhe são garantidos pela Constituição desde 1988. Trata-se de uma tríade indissociável enquanto ações de governo que busquem a formação de cidadãos autônomos e conscientes, com acesso ao belo em seu estado de arte. Juntá-las sob uma única cabeça que decide, porém, significará uma decisão cruel ao gestor que está à frente da Prefeitura: trocar, menos de 100 dias após a posse, quem está no comando da secretaria municipal da Educação. Afinal, quando da escolha desse nome, a fusão não era factível.

Sou contra mudanças radicais como a que mexe na cultura e nos esportes usando como discurso crise financeira ou situação de momento do país e do mundo. Foi investindo em educação e cultura que nações como Japão e Alemanha ressurgiram no pós-guerra e hoje figuram como as economias mais sólidas dos continentes asiático e europeu, respectivamente. Não sabemos, aqui nesse país, o que seja uma revolução. Não experimentamos a guerra. Mas, em contrapartida, nos especializamos em adotar discursos pobres que, em sua essência, sepultam cada vez mais a nossa maior riqueza, que é a cultura popular.

Os olhos que hoje enxergam a realidade de Assis norteiam as bocas que falam meias verdades sobre a cidade. Assis não está um caos político-administrativo porque o ex-prefeito foi péssimo. Está assim porque houve uma série sucessiva de maus gestores nesses últimos 20 anos, cada qual com seus defeitos e virtudes. Alguns com mais defeitos do que virtudes, outros com mais virtudes do que defeitos. Fico, cá sentado, esperando a chegada do gestor que não assuma o complexo de vira-lata e diga que está fazendo o que dá. Se for para assim discursar, que o próximo gestor que se proponha a administrar nem se candidate. Aliás, que a cidade tenha 2 candidatos, que seja; com propostas efetivas em forma de plano de governo, e não sete candidatos com palavras bonitas que em nada são relacionadas à realidade da relação receitas/despesas.

Estamos no sexto mandato de prefeito em que no primeiro trimestre de gestão a imprensa é chamada para mediar o choro político do caos financeiro e a aspiração da população que colocou tais figuras no poder. O atual e o ex-prefeito trocam acusações, mas são os que menos podem reclamar. Precisam saber o momento de fechar a boca. Afinal, eram vereadores quando dos dois mandatos do ex-prefeito Ezio Spera, período em que começaram a estourar os saldos negativos da gestão do município. Tiveram a oportunidade de ser oposição e articular para que o caos não fosse estabelecido. Uma parte consentiu, a outra até mesmo aderiu ao governo daquele prefeito em sua reta final. Blogueiro não vê, pois, leite nem lágrimas para derramar.

Fica a sensação de que nesses vinte anos Assis desaprendeu a fazer política. Uma Câmara Municipal apática, com poucas vozes que não falam amém para quem está no poder. O descrédito da parte representada é tamanho que falta pouco para metade da população habilitada para o voto simplesmente não ir votar, ou quando for votar, abrir mão de escolher alguém. Cidade com mais de 100 mil habitantes, para alegria dos quantitativistas, que elege um prefeito com pouco mais de 15 mil votos, para desespero de quem espera uma cidade melhor.

Aparentemente, nesse cenário todo, a tal fusão cultura e esportes vai mesmo ser vinculada à educação. Quem sabe, depois de 100 dias, seja iniciativa única que vá dar realmente certo e sair só do discurso choroso relacionado ao passado recente. Nessa utopia, quem sabe as políticas educacionais locais, enriquecidas por um esporte e uma cultura pujantes, ajudem a formar cidadãos que daqui a 20 anos cheguem aos cargos políticos e, com um pouco mais de discernimento da vida real, assumam suas candidaturas com plano de governo que considere, primeiro, a real situação do município, e, depois, ações efetivas que sejam legitimamente próprias, corajosas, e não embasadas em faz de contas.

* Professor universitário e jornalista, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.


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