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sábado, 21 de outubro de 2017

PRENÚNCIO - E se for agora?

Cláudio Messias*

Dia desses, na solidão que me tem sido peculiar desde que optei por empregar-me a 2.800km de meu lar, fiquei a refletir sobre (a) o que fiz nesses passados 47 anos e meio de vida e (b) se compensou ter feito o que fiz.

Meu primeiro sonho, na infância, conforme está registrado em meu memorial circunstanciado, que faz parte de meu projeto trienal na Universidade Federal de Campina Grande, era desmaterializar-me na condição de um dos agentes que, na  minha infância, faziam o meu imaginário de ouvinte infantil de rádio. Por mais de duas décadas fui radialista, jornalista, comentarista de TV, enfim, exerci o mercado da comunicação.

A mulher que mudou minha vida e deu-me apoio em tudo o que fiz também foi o norte para que eu chegasse onde estou hoje. Minha esposa, com quem convivo desde os 19 anos, sempre foi meu parâmetro para superar as adversidades. Também nasceu na pobreza da zona rural, cresceu sob a dificuldade de não ter tudo o que comer, roupas a vestir e, muitas vezes, condições mínimas para estudar e seguir em busca dos objetivos principais.

De jornalista a professor, transitei por esses caminhos profissionais segurando as mãos de Rozana. Uma negra que formou-se no ensino superior, lecionou na rede pública do Estado de São Paulo, fez mestrado e doutorado, tudo em instituições públicas e sem precisar ser beneficiada por cotização. Agora, nesse momento, encontra-se na Georgetown University, em Washington DC, em pós-doutoramento com bolsa Fapesp. Não é qualquer pessoal, não é qualquer educadora, não é qualquer pesquisadora e, digo com propriedade, não é qualquer esposa ou qualquer mãe de familia.

Iniciei a saída do jornalismo aos 33 anos, quando fui demitido em derrota na afronta a um editor de jornal na cidade de Marília. De marido desempregado, que para alguns parentes era folgado e vagabundo, sustentado pela esposa, formei-me em História na mesma Unesp-Assis que a esposa. Seis anos como professor na rede pública do Estado de São Paulo, uma especialização (ainda não concluída) em Comunicação Popular e Comunitária na UEL-Londrina, docência no ensino superior privado, mestrado e doutorado na USP e, nesse ínterim, aprovação em concurso público na Universidade Federal de Campina Grande.

Um casal com história de vida correlata. Uma vida a dois que está completando 28 anos em 2017. Dois filhos maravilhosos. E, claro, uma vida familiar como todas as demais, com seus conflitos, suas incoerências, suas baixarias. Coisa de gente normal.

Mas, o que me fez parar para pensar se compensou chegar até aqui da forma como estou chegando está relacionado a saúde. À minha saúde. Como registrei cá, nesse blog, já cheguei aos meus 104 quilos, resultado de uma vida sem controle alimentar adequado. Somado a isso, um histórico familiar de cardiopatia que só descobri em 2010, quando meu pai, José, foi submetido a cirurgia na Santa Casa de Presidente Prudente. E, sim, por ser congênita, a doença denominada isquemia miocárdica grave escolhe a esse filho de José, que aqui escreve, para iniciar uma fase interminável de sofrimentos.

O cardiologista Lisandro, que fez a cirurgia em meu pai, alertou-nos, em família, em 2010, sobre o fato de aquela cardiopatia ser congênita. E que os 4 filhos de José deveriam precaver-se. Desde então, iniciei monitoramento com cardiologista em Assis e iniciei controle alimentar que tirou-me 10% do peso. Nada, contudo, que alterasse o quadro de portador da isquemia miocárdica grave.

Já relatei, cá no blog, a cirurgia cardíaca a que fui submetido em 2015, na Santa Casa de Marília. O que não relatei e não tenho relatado são as sequelas desse procedimento.

Recebi quatro pontes de safena e uma ligação de mamária em 13 de fevereiro de 2015, depois de dois enfartos. Naquela data eu encontrava-me ocupando o cargo de docente na Universidade Federal de Campina Grande e com doutoramento em andamento na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Somado a isso, fazia o acompanhamento da saúde de meu pai, que desenvolvera a doença miastenia gravis pseudo paralítica como decorrência da cirurgia cardíaca.

Resumindo, cuidei de meu pai, mantive como pude as atividades na Universidade e concluí meu doutorado, na USP, com um ano e dois meses de antecedência ao prazo regular. Defendi minha tese em 20 de fevereiro de 2017. E, então, tudo caminhava para uma tranquila condução de minha vida profissional, conciliada à minha vida pessoal, familiar.

Meu diploma de doutorado ficou pronto, na USP, na última semana de julho passado. Pedi, pois, afastamento na Universidade e cá vim buscar o documento que almejei em 2003, quando saí de Marília e decidi trocar o jornalismo pela sala de aula. As datas de retirada do diploma coincidiram com (a) a ida da esposa aos EUA, para período de seis meses de pós-doutorado, e (b)o Dia dos Pais.

Acompanhei a esposa até Guarulhos, para embarque rumo a Washington, na mesma data em que retirei meu diploma de doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo. Na segunda-feira seguinte eu retornaria a Campina Grande, mas, antes, no domingo, passaria o Dia dos Pais com meu pai, José, e, claro, meus irmãos e meus dois filhos.

Só que às4h50 do segundo domingo de agosto fui acordado por uma dor aguda, igual ou mais forte do que dores que havia sentido em duas ocasiões anteriores e que levaram-me, na ocasião, à mesa de cirurgia. Antes das 7h00 meu filho Vitor, acompanhado de minha maravilhosa nora Júlia, estava comigo no Hospital e Maternidade de Assis. Sim, era o terceiro enfarto. O primeiro após a cirurgia de 2015.

Alguns sinais foram dados, pelo meu organismo, de que as coisas não estavam bem. De fevereiro até agosto por diversas vezes passei mal na universidade, algumas delas dentro de sala de aula. E na solidão de quem vive e convive sozinho, perturbações que nos fazem fugir do controle da razão, chegando a especular o pior de todos os fins.

Com esse terceiro enfarto o coração, que já nao estava bom, ficou ainda pior. Enfraqueceu. Descobri, pelos cardiologistas, o que é a bradicardia. O bichão não bombeia sangue como deveria, a todos os órgão vitais, e em algumas circunstâncias isso provoca panes. Em síntese, quando estou em prática de atividades físicas o coração corresponde, sem problemas. Mas, quando em repouso, vem a angina, que é a dor provocada justamente pelo fato de o bombeamento de sangue não ser suficiente.

O que vejo, hoje, é um Cláudio Messias que aos 47 anos de vida ouve dos médicos que não compensa abrir novamente o peito e mexer no coração, passados apenas dois anos e meio após a cirurgia. O que resta é administrar o quadro com medicamentos e, dia após dia, vivenciar eventos diversos, como madrugadas de sono interrompidas sempre às 4h00, com o coração dando o recado de que, sim, tem muita coisa errada acontecendo.

De todas as lições que tiro disso tudo, a melhor é aquela que ouvi de Francisco Faro, psiquiatra que desde o ano passado ajuda-me, em tratamento, a administrar minha vida emocional. Aprendi a dizer "não". Se não estou bem, não faço. E não estou bem.

Depois da cirurgia de 2015 perdi a confiança no futuro vindouro. Mas, com o pai em situação de saúde que exigia a minha presença contínua, um doutorado que exigia-me madrugadas de produção textual e leituras de livros e um emprego que revelou-me com quem poder e não poder contar, não tive outra alternativa a não ser colocar essa incerteza de vida vindoura em segundo plano.

Agora, do dia dos pais para cá, com o susto do terceiro enfarto, voltei à estava zero da incerteza sobre o que vem pela frente. Continuo e não arredo pé de minha disposição por dizer "não" quando não puder fazer. Mas, não sei planejar o amanhã.

Agora mesmo o relógio marca 1h10 de uma madrugada de domingo. Venho de uma noite anterior interrompida às 4h30, pela dor aguda no peito. Tomo meus remédios, aguardo o efeito e confio que não será necessário, de novo, meu filho correr comigo para o hospital.

Nessas madrugadas de sono interrompido pela cardiopatia fico a pensar. Um doutor, docente em universidade pública, talvez prestes a enfartar pela última vez, perambulando pela casa, enquanto aqueles que o criticavam e criticam, sem ter feito metade do que fez, repousam na tranquilidade.

Ver o sol raiar, como fiz hoje, soa como alívio, pois a alvorada coincide com o efeito do medicamento que controla o bichão dentro do peito. Reforço minhas orações a Nossa Senhora de Fátima e ao deus como defino como Força Criadora, e confirmo que não, não foi dessa vez que parti.


Poucas vezes arrependo de algo que tenha feito. Talvez saiba contar nos dedos eventos dessa natureza. Não, não ser agora que irei relatar um arrependimento. Contudo, a sensação de prenúncio de fim me faz querer pedir mais tempo. Tempo de concluir o que comecei. Tempo de ver o que ainda não vi. Tempo de não dar a meus pais aquela que talvez seja a pior das amarguras, que é inverter a ordem e despedir-se de um filho.


* Professor universitário e jornalista, é doutor em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.